Viajar às memórias….doces viagens

Ouvi muitas vezes as aventuras daquele irmão da minha avó, contada pela própria, sempre com um misto de orgulho e queixume, não sei explicar muito bem esta dualidade, acho que são “coisas de irmãos”.

A minha avó lamentava algumas vezes não ter estudos, não ter podido ir mais além. Sem o fazer diretamente, atribuía esse pouco investimento nela e nas irmãs à opção, feita pelos pais, de apostar no irmão, o único rapaz da família.

O irmão, contava envolvendo-se mentalmente nesses dias que já lá vão, tinha ido para Coimbra com o propósito de estudar medicina. Por lá andou alguns anos, visitando amiúde a família nas férias. A cada indagação da família, sobre o estado dos seus estudos, dizia ou dava a entender que estava tudo bem e que dentro de alguns anos teriam um médico na família. “Grande investimento!” – pensara o pai orgulhoso. O seu filho haveria de ser Homem respeitado na terra.

Passados os anos normais de um curso desta natureza e anunciado o famigerado final, a família vestida a preceito foi à tradicional queima das fitas. Ansiavam o reencontro com o filho, dar-lhe o relógio de ouro que havia passado de pai para filho ao longo das gerações, tirar uma fotografia encomenda ao fotografo de serviço, testemunhar esta etapa do seu filho com a certeza que tinham feito um bom investimento.

Não aconteceu…e não aconteceu, porque o menino da família, o depositário de todas as esperanças familiares tinha resolvido jogar à bola durante estes anos, viver uma vida boémia e sem receios ou pesos na consciência. Está claro que tais atribulações académicas suspenderam o seu percurso universitário e naquele dia…não tinha o canudo.

Das várias vezes que a avó me contou esta história, ve-lo com pena pelo irmão. Pelo futuro que ele não viveu e nunca pela sua própria oportunidade perdida. Se se pode dizer “oportunidade perdida”, porque a minha avó fez o seu “outro” caminho, foi uma mulher brilhante, nota máxima e com distinção na entrega ao outro (leia-se próximo) e de um sentido de familia irrepreensível. Mas não estudou…e isso ela tinha pena.

Tenho três filhas, nunca vou ter que optar entre elas e o rapaz que não tenho, mas se o tivesse que fazer…ah se tivesse que escolher (o que naquela época era normal) seria difícil, muito difícil. Tenho apenas uma certeza, a minha bitola jamais seria …. ser homem.

Como li, em vários artigos do blog das Capazes, que acompanho diariamente e onde em tantos momentos me revejo…. mesmo dando todas as oportunidades às raparigas, ainda que estudem e tenham nota máxima, quer sejam muito ou muitíssimo capazes, quando chegam à vida adulta, ao mercado de trabalho têm sempre mais dificuldades, a prioridade continua a ser deles.

Tenho 3 miúdas espertas e desenrascadas e desejo, desejo fundo e profundamente, que tenham todas as oportunidades da vida e que as saibam agarrar, com a garra que têm agora e que prometem continuar a ter.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s